As filhas de Ló

Considerando mais a fundo o incesto das filhas de Ló

É bem conhecida a história das duas filhas de Ló, que se deitaram com o próprio pai, adormecido pelo efeito do vinho, e conceberam dele, dando à luz a Moabe e Ben-Ami, pais dos moabitas e amonitas.
O episódio todo está descrito no contexto da destruição de Sodoma, Gomorra e cidades vizinhas, em Gênesis 19.19-21,30-38.
Antes de julgar o ato em si, convém fazer certas considerações, que talvez sirvam para entender melhor o caso.
1. Ló é referido como um homem justo (2Pe 2.7,8) e é certo que, conscientemente, não compactuaria com a intenção das filhas.
Por outro lado, tendo recebido a permissão de habitar seguro em Zoar, ali teria chance de encontrar maridos para as filhas, mas, por receio de que a cidade fosse também destruída, foi morar com elas numa caverna. O receio foi mais forte que a fé.
2. A motivação das filhas não foi por simples lascívia, um ato libidinoso, conforme a intenção demonstrada:
“Então, a primogênita disse à mais moça: Nosso pai está velho, e não há homem na terra que venha unir-se conosco, segundo o costume de toda terra. Vem, façamo-lo beber vinho, deitemo-nos com ele e conservemos a descendência de nosso pai”. (31,32)
Não se pode condená-las simplesmente por desejarem conservar a descendência do pai, o que conta para melhor avaliar a decisão das filhas.
Entre praticarem o incesto e não deixarem descendência para o pai, decidiram pelo que consideraram o mal menor.
3. Moabitas e amonitas tornaram-se inimigos de Israel, como também todos os povos ao redor. Embora Israel não devesse acolher aqueles dois povos nas “assembleias do SENHOR”, nem ter paz com eles, as razões não foram aquelas da origem dos povos (Dt 23.3-6).
4. Nos últimos capítulos de Jeremias, o profeta anuncia o castigo a diversas nações, e para algumas a promessa de restauração ao final, entre elas Moabe e Amom (48.47; 49.6).
Assim, o Senhor não rejeitou estes povos oriundos de uma relação incestuosa.
5. Por fim, uma questão para ser considerada: Como um homem adormecido pôde coabitar com uma mulher? Nos dois casos, repete-se a mesma expressão: “… sem que ele o notasse, nem quando ela se deitou, nem quando se levantou”. (Gn 19.33,35)
A explicação para isso parece ser o toque divino, num ato que pode ser questionado, mas que serviu aos seus desígnios. O exemplo a ser lembrado é o de Rute, a moabita, que veio a ser a bisavó de Davi e entrar na genealogia de Jesus.
E, para os que desaprovam totalmente o procedimento das filhas de Ló como pecaminoso, fica a palavra:
“… onde abundou o pecado, superabundou a graça”. (Rm 5.20)

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