Como entender Eclesiastes?

O dom não garante a virtude, nem se revoga quando ela falta!

Deus fez de Salomão o homem mais sábio e entendido de todos os tempos (1Rs 3.12). Ainda assim, revela em seu livro que o seu vasto conhecimento não lhe trouxe felicidade, mas enfado. Ou pela cansativa observação da rotina dos ciclos da natureza, ou pelas desigualdades e injustiças entre os homens, ou pela brevidade da vida, quando o ser humano parte do mundo assim como veio – sem nada. E a cada uma dessas realidades, o autor exclama: “Vaidade!”
Se Salomão, como parece, redigiu Eclesiastes em idade mais avançada, já um tanto desiludido, após constatar que “tudo é vaidade”, compreende-se o tom pessimista e fatalista do livro.
Eclesiastes é um livro de autoajuda. Segundo ele, pelas injustiças que existem, melhor seria não ter nascido. Mas já que estamos aqui, não vamos ter pressa de sair, porque da outra vida nada ou pouco sabemos. Simplesmente porque Deus guardou para si esse segredo, e não o revela a ninguém.
Nesse caso, se pretendemos conhecer mais de nossa vida pós-morte, temos de procurar outro livro da Bíblia. Por outro lado, se queremos aproveitar o melhor desta vida, como dom de Deus, estamos no livro certo!
A vida não é justa: o perverso recebe homenagens na sua morte e os piedosos são esquecidos; também, após a morte, o que acumulamos não sabemos para quem vai ficar. Então, comer, beber e gozar “a vida com a mulher que amas” é o quinhão que nos cabe, como compensação do desgaste do labor diário. Viver cada dia com alegria, antes que a velhice e a decadência física tornem a vida um fardo.
Mas mesmo o uso legítimo dos prazeres da vida tem de ser regido pela sabedoria, e a primeira expressão da sabedoria é a moderação. A sabedoria é útil em tudo. “O coração do sábio conhece o tempo e o modo.”; “Melhor a sabedoria do que as armas de guerra.” Mesmo sem verbalizar, a sabedoria do homem transparece naturalmente: “faz reluzir o seu rosto”.
Salomão, não só por necessidade, mas por prazer, edificou obras, plantou árvores frutíferas, acumulou servos, gado e ouro; mas, para seu deleite, “provi-me de cantores e cantoras e das delícias dos filhos dos homens: mulheres e mulheres”. Tudo em abundância, não negando nada que o seu coração desejasse. E o que concluiu? “E eis que tudo era vaidade e correr atrás do vento”. Não estava nisso o sentido da vida.
Salomão escreveu, na verdade, a sua biografia. Foi um reinado de opulência como dos grandes impérios.
Não obstante Deus lhe haver prometido riquezas e glória, errou em reunir um número exagerado de esposas, princesas estrangeiras. Isso pode ter sido ditado como meio de manter boas relações com outras nações, mas essas mulheres, apegadas a sua religião pagã, comprometeram sua fidelidade ao Deus vivo.
Para manter todo esse fausto, deixou para seu filho Roboão um sistema tributário pesadíssimo, que este, por sua vez, não quis aliviar, resultando na divisão do reino.
No final do livro, ao mesmo tempo que incentiva a juventude a desfrutar os prazeres da idade, adverte que “de todas estas coisas Deus te pedirá contas”.
E, para que todos se ativessem aos limites dos conselhos hedonistas do livro, ele termina com estas palavras:
“De tudo o que se tem ouvido, a suma é: Teme a Deus e guarda os seus mandamentos; porque isto é o dever de todo homem. Porque Deus há de trazer a juízo todas as obras, até as que estão escondidas, quer sejam boas, quer sejam más”.

   
   

 

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